Déborah Cardoso Ribas: "O meu maior anseio na literatura é auxiliar as pessoas a escreverem livros dignos de um prêmio"

Nascida no Lubango, província da Huila, Déborah Cardoso Ribas, também conhecida como Devoradora de Livros, é uma jovem angolana que intengra a lista dos escritores da nova geração. Déborah falou em entrevista exclusiva ao Cison Press sobre como começou a sua carreira, tendo igualmente revelado a sua grande missão no mundo da literatura que está firmada na ajuda de escritores iniciantes a escreverem os seus livros e descobrirem a sua criatividade.

Descobriu-se na literatura como uma leitora assídua. Que significado têm para si as obras "Quem Me Dera Ser Onda" e o "Livro do Patinho"?

O livro do Patinho foi um dos primeiros que eu decorei, posso dizer que é a minha introdução ao mundo da leitura.  O meu primo me deve dinheiro porque ele chamava os seus amigos para dizer: "Olha! a minha prima só tem três anos e sabe ler".

O "Quem Me Dera Ser Onda" é um livro que cresceu comigo. A primeira vez que o meu pai leu para mim este livro, eu devia ter os meus 7 ou 8 anos de idade. É um livro que me trouxe percepções diferentes a cada leitura, é uma obra que apesar de antiga, consegue se enquandrar na Angola actual.

Tem, até agora, apenas uma obra publicada que é a "Histórias do Coração". Quando é que pensa em lançar a próxima?

Epá, é um pouco indelicado perguntar a uma mulher quando é que ela vai voltar a engravidar (risos). Então, eu não sei dizer para quando uma nova obra, porque eu estou a trabalhar em novas coisas. Neste momento, eu estou mais focada em construir um portifólio, pois noto que tenho livro publicado, mas depois fica a pergunta: "O que é que a Déborah publicou mais?" E não há muita coisa, então, eu quero publicar um bocado mais em revistas e jornais, tanto em Português como Inglês. 

Como descreve o seu género literário?

Eu escrevo o que me dá na telha. Se amanhã eu ver uma história e me cativar, eu vou escrever sobre ela. Eu falo muito de drama, de tragédia, porque eu tenho uma veia dramática muito forte e é o que eu gosto de explorar, mas não me fixo só neles, então, fica muito difícil definir um género. 

Quais são as suas influências na literatura nacional e estrangeira?

Eu conheço poucos autores angolanos. Por eu ter crescido em Portugal, eu comecei por ler mais autores portugueses e outros autores estrangeiros, mas actualmente cá, eu estou apaixonada pelo escritor Lourenço Mussango, por causa dos seus contos e da forma como ele os escreve. Admiro também o Ondjaki, o Agua Lusa, os autores moçambicanos Mia Couto e Paulina Chiseane.

Não teve muito contacto com a literatura nacional, mas dos poucos autores locais que já leu, que balanço faz da nossa literatura actual?

É um pouco difícil avaliares quando não conheces tudo. Eu não fiz uma pesquisa de ficar a ler, acho importante salientar isso. Portanto, li um livro e outro, mas noto que existe falta de mais preparação e estruturação de um texto literário, porque quando nós publicamos um livro, existe uma estrutura que é necessária seguir, regras de escrita e de apresentação da obra que também facilita a leitura. E, a meu ver, ainda nos falta esse brio em termos de estética literária e de escrita literária.

No seu entender, a que se deve essa falta de preparação em alguns autores nacionais?

Talvez porque existe muita publicação independente cá, porque a publicação tradicional, feita atravez de uma editora, é difícil e cara. Quando se faz uma publicação independente e o livro não passa por uma revisão, por uma curadoria, e talvez uma análise mais aprofundada de um autor, nem sempre teremos um livro que já está pronto para ser mostrado ao mercado ou que está pronto para participar de um concurso literário, por exemplo.

Como é que olha para a questão do acesso e valorização dos livros em Angola?

Necessitamos de uma indústria que estabeleça e estabilize o preço do livro porque temos, por exemplo, obras infantis que custam 10 mil kwanzas, o que é complicado. Por outro lado, está também o rendimento do escritor, pois eu não vou pensar em escrever porque eu sei que não vai dar dinheiro, e nem enaltecer o escritor porque terá quase nada como retorno. Portanto, a educação e a literatura importam e o primeiro passo é introduzirmos isso às crianças.

Qual é o seu maior anseio na literatura?

O meu maior anseio na literatura é poder auxiliar as pessoas a escreverem bem, a escreverem um livro digno de um prêmio. É de ver alguém escrever um livro que a pessoa olha e sente orgulho. É poder cativar o maior número de pessaos a escrever, principalmente mulheres, sinto muita necessidade de trabalhar com mulheres porque aqui são poucas as escritoras que têm grandes obras.

Como se sente, quando fica muito tempo longe dos livros, sem leitura?

Eu sinto-me mal, fico rabugenta, mal disposta, agressiva e irritada, ou seja, são sintomas muito parecidos quando eu estou com fome.

Além da literatura, o teatro também é uma das suas paixões...

Sim, eu também gosto de escrever para teatro. Eu quero focar-me em escrever uma peça de teatro para jovens e para ser encenada por jovens, é algo que me fascina e acho muito interessante, fazer algo assim para a juventude.


Texto: Narciso Drake 


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